domingo, 21 de novembro de 2010

Self Made Man

Em 1980 o Festival RTP da Canção ainda constituía um acontecimento musical relevante, não só pelo impacto que conseguia ter no mercado da música mas, principalmente, por contar com uma grande orquestra que ensaiava durante uma semana, produzindo assim uma espécie de "conclave de músicos" cuja repercussão se estendia pelos meses seguintes.

Nesse ano eu concorri com uma canção divertida, “Self made man”, cuja letra se inspirava na anedota do homem de sucesso que subia a pulso (devagarinho) na vida, até que lhe saia uma herança duma tia afastada. Para a interpretar criei um grupo chamado S.A.R.L. - Sociedade Artística e Recreativa Lusitana, formada por mim, o Samuel e o Carlos Moniz, assessorados por três vozes femininas.

Uma certa ingenuidade ideológica que na altura ainda se vivia, levou a que fossemos atacados por, no final da cantiga, quando a letra dizia "...foi muito cumprimentado e faleceu confortado com todos os sacramentos", o Samuel se deixar cair nos braços das meninas enquanto o Carlos e eu simulávamos uma vaga bênção.

Também alguns sectores mais radicais da direita diziam que a minha canção era perigosamente esquerdista porque ridicularizava a figura do "homem de origem humilde que consegue subir na vida". Que longo caminho percorremos nestes vinte e poucos anos!

Como a cantiga se apresentava como uma das potenciais vencedoras as coisas aqueceram com o aproximar do espectáculo final.

Na noite de todas as decisões, enquanto nós cantávamos no palco do saudoso Monumental, um grupo capitaneado pelo António Avelar Pinho, que fazia parte do ‘staff’ das Doce que também concorriam, gritava do fundo da sala – comunas… comuuunas…

Acabou por ganhar o José Cid e o tempo adoçou todos os rancores daqueles dias.

Pedro Osório
http://www.pedroosorio.com/cronicas.htm#selfmademan

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