Em 1975 a RTP organizou o seu habitual Festival da Canção num ambiente configurado pelo PREC (processo revolucionário em curso) em que o exercício da democracia e o receio de desagradar à esquerda estavam presentes em todas as manifestações públicas.
Dando mais importância ao segundo aspecto desvalorizou o primeiro e decidiu, pela primeira vez,
escolher as canções concorrentes não por concurso público mas por convite.
Este convite foi feito muito em cima da hora numa reunião conjunta com todos os autores escolhidos, entre os quais eu, e quando observei que dispúnhamos de pouco tempo para escrever uma boa canção o Zé Mário Branco, na altura o mais radical dos presentes, disse num tom imponente – “Quando se sabe o que é que se tem para dizer não é necessário muito tempo!”
Houve quem lançasse a suspeita de que aquela frase se devia ao facto de ele já ter uma canção pronta para o efeito mas provavelmente isso não corresponderia à realidade.
Acabei por escrever uma canção de parceria com o Jorge Palma com o título “O pecado capital” em que era feito um trocadilho entre o capital adjectivo e substantivo.
O festival realizou-se no Teatro Maria Matos e o processo de votação – também aqui desvalorizando a democracia para dar um ar mais “práfrentex” – foi retirado ao público e entregue aos próprios autores que teriam de votar uns nos outros.
O Zé Mário apareceu com o GAC – Grupo de Acção Cultural – e uma excelente canção heróica de título “Alerta”. O Sérgio Godinho tinha também uma belíssima canção – “A boca do lobo”, apresentando-se estes como os mais fortes concorrentes.
Só que quando se entrou na auto-votação aconteceu o que era previsível; cada um tentou puxar a brasa à sua sardinha e economizou os pontos que concedeu ao mais temido concorrente. Feitas as contas acabou por ganhar uma canção do José Luís Tinoco, que todos achavam bonita mas inofensiva.
Também aqui andávamos todo a aprender a viver em liberdade.
Pedro Osório
http://www.pedroosorio.com/cronicas.htm
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