segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pecado Capital

Em 1975 a RTP organizou o seu habitual Festival da Canção num ambiente configurado pelo PREC (processo revolucionário em curso) em que o exercício da democracia e o receio de desagradar à esquerda estavam presentes em todas as manifestações públicas.

Dando mais importância ao segundo aspecto desvalorizou o primeiro e decidiu, pela primeira vez,
escolher as canções concorrentes não por concurso público mas por convite.

Este convite foi feito muito em cima da hora numa reunião conjunta com todos os autores escolhidos, entre os quais eu, e quando observei que dispúnhamos de pouco tempo para escrever uma boa canção o Zé Mário Branco, na altura o mais radical dos presentes, disse num tom imponente – “Quando se sabe o que é que se tem para dizer não é necessário muito tempo!”
Houve quem lançasse a suspeita de que aquela frase se devia ao facto de ele já ter uma canção pronta para o efeito mas provavelmente isso não corresponderia à realidade.

Acabei por escrever uma canção de parceria com o Jorge Palma com o título “O pecado capital” em que era feito um trocadilho entre o capital adjectivo e substantivo.

O festival realizou-se no Teatro Maria Matos e o processo de votação – também aqui desvalorizando a democracia para dar um ar mais “práfrentex” – foi retirado ao público e entregue aos próprios autores que teriam de votar uns nos outros.

O Zé Mário apareceu com o GAC – Grupo de Acção Cultural – e uma excelente canção heróica de título “Alerta”. O Sérgio Godinho tinha também uma belíssima canção – “A boca do lobo”, apresentando-se estes como os mais fortes concorrentes.

Só que quando se entrou na auto-votação aconteceu o que era previsível; cada um tentou puxar a brasa à sua sardinha e economizou os pontos que concedeu ao mais temido concorrente. Feitas as contas acabou por ganhar uma canção do José Luís Tinoco, que todos achavam bonita mas inofensiva.

Também aqui andávamos todo a aprender a viver em liberdade.

Pedro Osório
http://www.pedroosorio.com/cronicas.htm

domingo, 21 de novembro de 2010

Self Made Man

Em 1980 o Festival RTP da Canção ainda constituía um acontecimento musical relevante, não só pelo impacto que conseguia ter no mercado da música mas, principalmente, por contar com uma grande orquestra que ensaiava durante uma semana, produzindo assim uma espécie de "conclave de músicos" cuja repercussão se estendia pelos meses seguintes.

Nesse ano eu concorri com uma canção divertida, “Self made man”, cuja letra se inspirava na anedota do homem de sucesso que subia a pulso (devagarinho) na vida, até que lhe saia uma herança duma tia afastada. Para a interpretar criei um grupo chamado S.A.R.L. - Sociedade Artística e Recreativa Lusitana, formada por mim, o Samuel e o Carlos Moniz, assessorados por três vozes femininas.

Uma certa ingenuidade ideológica que na altura ainda se vivia, levou a que fossemos atacados por, no final da cantiga, quando a letra dizia "...foi muito cumprimentado e faleceu confortado com todos os sacramentos", o Samuel se deixar cair nos braços das meninas enquanto o Carlos e eu simulávamos uma vaga bênção.

Também alguns sectores mais radicais da direita diziam que a minha canção era perigosamente esquerdista porque ridicularizava a figura do "homem de origem humilde que consegue subir na vida". Que longo caminho percorremos nestes vinte e poucos anos!

Como a cantiga se apresentava como uma das potenciais vencedoras as coisas aqueceram com o aproximar do espectáculo final.

Na noite de todas as decisões, enquanto nós cantávamos no palco do saudoso Monumental, um grupo capitaneado pelo António Avelar Pinho, que fazia parte do ‘staff’ das Doce que também concorriam, gritava do fundo da sala – comunas… comuuunas…

Acabou por ganhar o José Cid e o tempo adoçou todos os rancores daqueles dias.

Pedro Osório
http://www.pedroosorio.com/cronicas.htm#selfmademan

sábado, 20 de novembro de 2010

Cantemos Até Ser Dia

Já houve um tempo em que os Festivais da Canção da RTP tinham a concurso canções um pouco melhores e, em alguns casos, cantadas por cantores e cantoras, para dizer o mínimo... diferentes.

Ainda voltarei algumas vezes a este assunto. Por hoje, deixo-vos com a Teresa Silva Carvalho, cantando uma grande canção (que não foi a lado nenhum...) da autoria do Pedro Osório, que também orquestrou e dirigiu a orquestra. Estávamos em 1979.

Apenas como curiosidade, a fazer as vozes de suporte para a Teresa, está um “empenhado” coro, constituído pelo Carlos Alberto Moniz, a Madalena Leal (filha do José Viana e da Dora Leal), a nossa amiga Joana (que se deixou destas coisas), eu próprio (apenas com dois terços do peso e uma floresta de cabelo) e a minha companheira de viagem desde há 25 anos, a Maria do Amparo (que suavemente se foi transformando na Vovó Maria).

Mesmo dando-se o caso de alguns de nós termos entrado no mesmo Festival como “artistas principais”, por qualquer razão achávamos que não nos caíam os galões por, na mesma noite, subirmos ao palco como solistas e a seguir, noutra música, fazendo coro para os amigos. Feitios...

Fiquem pois com esta bela melodia (e letra!) do Pedro Osório e entrem bem no fim-de-semana.

Samuel, 06/12/2008
http://samuel-cantigueiro.blogspot.com/2008/12/cantemos-at-ser-dia.html

clicar no link acima para ler a letra e ver o video da canção