quinta-feira, 20 de maio de 2010

Tourada

Os filhos, os amigos, a escola, tudo são sinais que ficam para a vida, por dentro dela. Mas há outros sinais, no meu caso as canções. Em 72 disse ao Ary que aquele meu tema musical me sugeria tourada, praça de touros, cor, trajes, modos e meneios, cortesias e falta delas, a linguagem tão específica da "festa dos touros" que aprendi em anos de transmissões da RTP e que serviram para transmitir ao Ary - "...mas eu não sei nada de touradas!" O vocabulário que consta do histórico texto da canção, escrevi-o eu naquelas folhas de sebenta onde o Ary registou a parte mais importante das letras para Música da história da canção em Portugal.

No próximo sábado, vou à "Casa Maior" do toureio no nosso país cantar a célebre e sempre oportuna "Tourada". Tem um significado especial para mim? Tem. A verdade é que já há uns anos, no mesmo local e com direcção do Filipe La Féria ouvi a dita cantiga cantada por um jovem que a interpretou com coragem e qualidade. Mas ser eu a fazê-lo tem, também para mim, um encanto especial. Porque a tourada continua a ser o espectáculo belo e polémico que se repete na canção, anunciando naquele tempo e para espanto de um povo inteiro, que pouco mais de um ano depois a nossa vida mudaria para nunca mais ser a mesma. Ir lá eu cantar, no pleno exercício da minha profissão e da Liberdade que a "Tourada" gritantemente anunciava, é um motivo de alegria, da mais pura e profunda alegria. Não sei quantas vezes terei cantado a "Tourada", e muito menos quantas vezes voltarei a cantá-la. Mas nenhuma foi ou será como esta, porque esta explica, ao cabo de 37 anos, que o que a canção diz nada tem a ver com um Campo Pequeno, como tantos erradamente julgaram. A "Tourada" tem a ver com o campo muito maior da liberdade que tantos anos depois ainda nos dá sinais de enfraquecimento, lembrando que há que cantar todas as canções do nosso sonho concretizado a tempo inteiro.

Fernando Tordo
http://quandonaosouberescopia.blogspot.com/
03/03/2010

domingo, 25 de abril de 2010

E Depois do Adeus


"E Depois do Adeus", de Paulo de Carvalho (King Single, ORFEU WSAT 307, 1974), tem igualmente o seu lugar na história sonora do 25 de Abril. Foi a primeira senha via rádio às 22h55 do dia 24 na Rádio Graça, pertencente aos Emissores Associados de Lisboa. João Paulo Dinis lançou o primeiro sinal: "Faltam cinco minutos para as 23h00. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74, "E Depois do Adeus". Era o sinal para a preparação de saída dos quartéis em Lisboa e num raio de 100 quilómetros (potência da rádio), o que incluia a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas.

A canção, da autoria de José Niza e José Calvário, tinha sido escolhida pelo próprio João Paulo Dinis porque não levantava suspeitas. Era apenas a vencedora do Festival RTP da Canção e representante do país no Festival da Eurovisão que se tinha realizado em Brighton, no Reino Unido, duas semanas antes, no dia 06. O Festival foi ganho por "Waterloo", dos ABBA, e a canção portuguesa ficou em último lugar "ex aequo" com a Noruega, Alemanha e Suiça, com apenas três pontos, um dado por Espanha e dois pela Suiça.


Luís Pinheiro de Almeida, Netparque, 16/04/2001



E Depois do Adeus


A editora Farol lançou, em 2007, uma colectânea dedicada ao 25 de Abril a que deu o nome da canção que foi o primeiro sinal radiofónico da Revolução dos Cravos.

sábado, 20 de março de 2010

O Meu Coração Não Tem Cor

Concorrer para não ganhar

Muitas vezes me perguntam por que nunca ganhámos um ‘Eurovision Song Contest’, entre nós chamado de Eurofestival. Em vez de responder directamente, com uma argumentação que, como todas as argumentações, pode sempre ser rebatida, prefiro contar a minha última experiência nestas andanças deixando as conclusões a cargo de cada um.

Em 1996 concorri ao Festival RTP da Canção com «O meu coração não tem cor», que tinha letra do José Fanha e foi interpretada pela Lúcia Moniz. Ganhámos o Festival e bilhetes para Oslo, onde se realizaria o Eurofestival desse ano.

As duas tarefas mais importantes que se nos deparavam eram, como em todos os espectáculos, a produção e a promoção.

Enquanto que a produção era fundamentalmente gerida por nós, os autores e intérpretes, a promoção era da responsabilidade da RTP. Aí começaram os problemas. Dentro do espírito que, entre nós, tradicionalmente impera na administração pública, os cortes orçamentais começam pela actividade artística. Assim, de toda a publicidade que se pode fazer num caso destes e que passa por anúncios em revistas internacionais da especialidade, CDs de promoção, tournées de apresentação do artista etc., o único passo dado pela RTP foi a distribuição pelos países aderentes à Eurovisão de um vídeo-clip, até porque este era obrigatório pelo regulamento. Mesmo aqui, enquanto países em grande dificuldade como a Bósnia e a Letónia apresentaram vídeo-clips de grande produção, nós mandámos… a gravação da canção feita durante o Festival RTP da Canção. Era a solução mais baratinha e menos eficaz.

Salto aqui as peripécias ocorridas até à nossa partida, para contar duas das muitas por que passámos em Oslo, por me parecerem ainda mais reveladoras.

A semana de ensaios de um Eurofestival atrai uma multidão de jornalistas da especialidade, oriundos de todos os países participantes, cuja atenção tem de ser conquistada, porque as suas notícias são um eficaz meio de persuasão junto dos júris que irão votar na grande noite. Para quem, como nós, não tinha meios financeiros, havia um ponto fulcral da promoção, que era a conferência de imprensa oficial que sucede ao primeiro ensaio geral. Chegámos a essa conferência sem um CD, uma cassete, um desdobrável, um ‘press release’, uma foto da cantora ou uma garrafa miniatura de vinho do Porto. Safou-nos a Lúcia com uma ideia genial: puxando do seu cavaquinho, disse que, uma vez que não tínhamos nada para lhes oferecer, iríamos dar a única coisa que possuíamos. E demos-lhes música.

Na esperada noite do festival, e devido ao facto de as roupas terem chegado poucas horas antes da sua realização, a Lúcia, que era suposto dançar, não pôde fazê-lo porque a presilha de um dos sapatos partiu-se e não foi possível substituí-la, pelo que ela foi obrigada a “arrastar a chinela” (tive de ir eu pedir ao realizador que não a focasse a entrar no palco), enquanto uma das cantoras do coro teve de actuar com a blusa por fora da saia que, tendo chegado com dois números abaixo do devido, era impossível de apertar sem que a impedisse de respirar convenientemente.

Tudo isto, e o mais que aqui não conto, ganha um significado especial se atendermos a que foi com esta canção que Portugal conseguiu a melhor classificação de sempre.

Pedro Osório
http://www.pedroosorio.com/cronicas.htm#concorrer

segunda-feira, 8 de março de 2010

Há Dias Assim

Tema escrito e composto pelo jornalista da SIC Augusto Madureira venceu a grande final no Campo Pequeno

O tema, nasceu "há oito meses", e quando se decidiu a levá-lo ao Festival da Canção falaram-lhe da jovem que tinha vencido, em 2007, o concurso da SIC Família Superstar. "Fui ao YouTube e fiquei de boca aberta." Ligou-lhe, deu-lhe quatro temas, e "Há Dias Assim" foi a preferida da intérprete "desde o primeiro minuto". "Ela deu imensa voz e alma à minha canção", sublinhou Augusto Madureira. A canção foi a mais votada pelo júri das capitais de distrito de Portugal e obteve sete pontos do júri do público.

LINA SANTOS / DN, 08/03/2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Chamar a Música

A eliminatória portuense do Festival da RTP da canção foi vencida por uma cabo-verdiana que já actuara no «Chuva de Estrelas», programa de Catarina Furtado para a SIC. E outros concorrentes também vieram dessa fornada. Mas apesar destas promessas, um elemento do próprio júri considera que o «nível musical baixa».

Nesta eliminatória portuense -- que se realizou pela primeira vez e a que se seguirá outra idêntica, na próxima segunda-feira, no Teatro S. Luiz, em Lisboa --, três dos dez intérpretes concorrentes tinham já tido a sua revelação televisiva no programa «Chuva de Estrelas», da SIC. E foi, precisamente, uma dessas revelações do programa de Catarina Furtado, uma jovem de 15 anos de ascendência cabo-verdiana, Sara Alexandre, que obteve a mais alta pontuação da noite: 44 dos 50 pontos em disputa, com uma canção de um compositor praticamente desconhecido, João Mota Oliveira.

Estudante de design, Sara vive em Almada e é a rapariga mais velha de uma prole de 11 filhos de um casal separado por um oceano. O pai vive nos Estados Unidos, a mãe no Algarve. «Tenho uma luz dentro de mim, e acredito ter boas hipóteses para a final», explicou a jovem intérprete.

«Luz interior» e «nível inferior»

Rosa Lobato Faria, autora da letra desta canção, intitulada «Chamar a Música», há já quatro anos que concorre ao festival da canção. «Sempre a convite dos compositores», como faz questão de dizer: «O João Oliveira, um jovem que me foi apresentado por uma amiga comum e que está a estrear-se, enviou-me algumas composições e achei que esta era a mais bonita. Gostei logo do trabalho dele». «Mas antes de isso acontecer tinha visto a Sara no `Chuva de Estrelas', em que interpretou uma canção da Whitney Houston, e vi logo que ela tinha uma magia toda especial, uma voz fantástica e, sobretudo, uma luz interior qualquer», concluiu a letrista.

«Ela canta excepcionalmente bem. A interpretação é fantástica» referiu, por seu turno, André Sarbib, um dos elementos do júri, acrescentando: «A miúda é promissora, a melodia é bonita e a orquestração (de Thilo Krassman) melhor ainda».

António Lage / Público, 12/01/1994

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Oração


No fim ganhou "Oração" que, apesar de inédita tinha já sido cantada no Teatro (sabiam?)- é o próprio Calvário que o confirma num artigo da época em que explica que isso não é impedimento, face às regras do concurso... e o resto é história!

http://www.historia.com.pt/vinyl/txt/1964.htm
(página sobre os Festivais existentes antes de 1964)